Mulheres na computação — Uma dinâmica tecnológica da qual não se fala

O estereótipo contemporâneo de um programador ou engenheiro de computação é o de um homem jovem, mas essa nem sempre foi a realidade. Inicialmente, a programação de computadores era considerada uma tarefa menor que consistia unicamente em realizar cálculos pré-determinados e, por isso, taxada como trabalho para mulheres. Hoje em dia, o universo da tecnologia é completamente diferente do que foi há várias décadas e as mulheres foram, em grande medida, escanteadas pelos homens. Voltar-se para o passado proporciona uma perspectiva interessante sobre o papel feminino na computação e como as coisas mudaram.

O harém de Pickering e as garotas do ENIAC

O “harém de Pickering” era um grupo de mulheres contratado por Edward Charles Pickering no final da década de 1800 para trabalhar em Harvard. Elas desempenhavam, por uma fração do que um homem receberia, um trabalho digno de monges considerado muito tedioso para acadêmicos e funcionários do sexo masculino.

Os cursos universitários de matemática eram populares entre as mulheres na década de 1930, e realizar cálculos manuais era o trabalho disponível para essas diplomadas. Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu, as matemáticas foram recrutadas para ajudar a fazer os cálculos balísticos. As seis mulheres apelidadas de “garotas do ENIAC” trabalharam nos programas do ENIAC, o primeiro computador elétrico generalista do mundo.

Conforme se tornava óbvio que inserir cálculos em uma máquina causava mais contratempos do que fazê-los manualmente, as mulheres começaram a resolver os problemas cotidianos e logo foram encarregadas de todos os aspectos matemáticos da codificação. As mulheres do ENIAC uniram forças com a professora titular de matemática, Grace Hopper, que se juntou à Reserva da Marinha. Hopper produziu uma grande inovação quando encontrou uma maneira de programar computadores com palavras, em vez de números, por meio de uma linguagem chamada COBOL. A partir daquele momento, os softwares puderam ser usados em quaisquer hardwares, e finalmente tiveram sua importância reconhecida.

Ada Lovelace: a primeira programadora de computadores do mundo

Mesmo antes de Harvard e do Esforço da Guerra, veio Ada Lovelace, a talentosa matemática filha de Lord Byron. Ela trocava correspondências com o professor de matemática de Cambridge, Charles Babbage, que desenvolveu os projetos para uma Máquina Analítica. Apesar de não tê-la construído, Lovelace criou a programação que poderia ser usada para calcular os números de Bernoulli, um trabalho agora considerado como sendo o primeiro programa de computador do mundo. Uma verdadeira visionária, ela foi capaz de ver que os números poderiam ser usados para representar qualquer conjunto de dados, e que as máquinas poderiam manipular esses números.

Ir fundo nos números e avançar já

Logo após do Esforço de Guerra, das garotas do ENIAC e de Hopper, as mulheres começaram a desaparecer do cenário da computação. Ainda que os cassinos on-line tenham uma tendência a empregar números iguais de homens e mulheres em todas as áreas, isso certamente não é o caso em todos os lugares, e não foi o que aconteceu historicamente. Os homens se tornaram mais interessados nesse campo de atuação, a importância dos softwares foi reconhecida e os sistemas de marginalização das mulheres, incluindo os testes de personalidade, tornaram-se rotineiros. Para que o computador fosse um trabalho masculino, ele precisava ser mais prestigiado.

Chegamos à situação em que as mulheres estão sub-representadas na engenharia e na tecnologia e suas realizações precursoras quase não são lembradas. Pior, isso não ocorre apenas nesses campos. As mulheres sofrem pela falta de reconhecimento nos cargos de gestão e de liderança de todos os ramos. Em quase qualquer área que não seja uma “profissão do cuidado”, como a enfermagem, os homens são os membros dominantes da força de trabalho.

O ambiente tóxico produzido pelos papéis de gênero no ambiente de trabalho não é bom para homens, mulheres ou para as empresas; vários estudos evidenciam que empresas mais integradas funcionam melhor financeiramente e lidam com novos desafios de forma mais produtiva. À medida que movimentos como o #metoo e o #timesup se avolumam, fica claro que devemos reconhecer esses fatos imediatamente  e começar a criar ambientes onde todos possam viver de acordo com seu potencial. Isso vai levar tempo e não será fácil, mas certamente valerá a pena.

Fontes:

https://www.hiremorewomenintech.com/

https://www.npr.org/sections/alltechconsidered/2014/10/06/345799830/the-forgotten-female-programmers-who-created-modern-tech

https://www.smithsonianmag.com/smart-news/computer-programming-used-to-be-womens-work-718061/

https://en.wikipedia.org/wiki/Women_in_computing

https://womensenews.org/2012/03/women-were-first-computer-programmers/

http://mentalfloss.com/article/53131/ada-lovelace-first-computer-programmer